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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Tópicos em Economia Florestal



UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO.
Instituto de Florestas – Departamento de Silvicultura - IF231- Economia Florestal
 (Trabalho da disciplina)
Avaliação econômica comparativa de Projetos Florestais destinados a Serraria e Energia.

João Flávio Costa dos Santos

Resumo

Avaliar economicamente um projeto requer conhecimento dos custos e receitas gerados pelo empreendimento ao longo do seu tempo de duração. Critérios de avaliação econômica como Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Interna de Retorno (TIR), Razão Receita Custo (R/C), Receita Líquida Periódica Equivalente (RLPE) e Custo Médio de Produção (CmPr) verificam a viabilidade de projetos e auxiliam na escolha do mais interessante em termos econômicos. Neste trabalho, dois projetos de empreendimentos florestais (um destinado à serraria e outro à energia) foram comparados quanto aos critérios econômicos.  Concluiu-se que ambos os empreendimentos florestais, segundo o fluxo de caixa desta análise, são economicamente viáveis e que o projeto serraria destacou-se por gerar mais lucro e em menos tempo.

Introdução

O Setor Florestal Brasileiro tem significativa contribuição para a economia nacional. Atualmente corresponde a 3,5% do PIB (IBGE, 2010), gera 640 mil empregos diretos (ABRAF, 2011), receita de cerca de R$ 42 bilhões e suas exportações equivalem a 3,4% do total exportado pelo país (SFB, 2012).  Além disso, apresenta grande potencial de crescimento. A exemplo disso tem-se os investimentos das empresas de base florestal tanto na área industrial, ampliando suas capacidades instaladas, quanto na compra de novas áreas para plantios de florestas e aquisição de máquinas e equipamentos mais eficientes, buscando sempre a otimização do processo produtivo, desde o plantio e manutenção, até a colheita e transporte florestal. Tudo isso, com o intuito de redução de custos, pela economia de escala (NOCE et al., 2005).
Conhecer os custos de produção de qualquer atividade da economia assume importante papel no processo de decisão do empresário e/ou administrador de determinado empreendimento econômico (GRAÇA et al., 2000). A análise econômica de projetos é uma ferramenta básica para determinar se o investimento deve ou não ser implementado (REZENDE et al., 2006).
Os projetos florestais se caracterizam pelo alto investimento inicial e longo prazo, fato que  torna-os mais arriscados que outros de menor tempo de duração. Ao optar por um investimento na área florestal, é necessário muita convicção no que diz respeito às informações utilizadas, pois um erro cometido poderá demandar muito tempo para ser corrigido (REZENDE et al., 1983). Conforme Graça (2000), na atividade florestal, qualquer análise financeira requer que, primeiramente os custos sejam apurados e depois dessa contabilização, sejam devidamente descontados para uma mesma base, podendo ser para o presente, através do valor presente, ou para o futuro, através do valor futuro.
O objetivo deste trabalho foi verificar a viabilidade econômica e comparar dois projetos de base florestal através dos custos e receitas da produção de madeira para Serraria e Energia. 

Material e Métodos

Os dados de custos e receitas referem-se a empreendimentos florestais em Minas Gerais. Para avaliação do projeto de madeira para serraria considerou-se o híbrido Eucalyptus urophylla X E. grandis com uma densidade de 1600 pés/ha (espaçamento 3X2 m), desbastes realizados aos 5 e 9 anos, corte final aos 12 anos e as respectivas produções de 80, 70 e 200 m³/ha. Para produção de madeira com fins energéticos considerou-se 3 cortes, aos 6, 12 e 18 anos, com respectivas produções esperadas de 300, 270 e 250 m³/ha. O Horizonte de Planejamento (HP), ou seja, tempo no qual o capital será investido, é, portanto, de 12 anos para o projeto de madeira para serraria e de 18 anos para a madeira para energia.
Como regra geral, todo critério de avaliação de projetos deve estar fundamentado no conceito de capitalização composta dos juros. O estudo econômico deste trabalho envolveu o cálculo do Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Interna de Retorno (TIR), Razão Receita Custo (R/C), Receita Líquida Periódica Equivalente (RLPE) e Custo Médio de Produção (CmPr).
Neste trabalho, foi considerada uma taxa de juros anual de 10% e taxa mínima de atratividade (TMA) de 10%. A TMA é a taxa mínima de juros que uma proposta de investimento deve oferecer para que o projeto de investimento seja atrativo. O investidor estabelece a sua taxa mínima de retorno para que determinado investimento seja atrativo, em detrimento de não realizar outros projetos. Nos investimentos florestais existe uma grande dúvida, quanto à escolha e utilização da taxa de juros ou taxa de desconto ou taxa mínima de atratividade (REZENDE, 1983). Na literatura florestal brasileira, observam-se taxas reais de juros entre 6 a 12% ao ano. Dentre os fatores que podem interferir na determinação da taxa de juros citam-se: risco e incerteza, inflação, duração do projeto ou horizonte de planejamento, preferência por liquidez, produtividade do capital e a posição particular do investidor (NOCE et al.,2005).

Análise de sensibilidade
Esse tipo de estudo mostra o quanto os projetos são afetados pela variação da taxa de juros, possibilitando até identificar graficamente uma aproximação da taxa de juros que marca a interface entre os intervalos de taxas de juros que determinam a viabilidade ou inviabilidade de projetos, ou seja, uma aproximação da TIR (VITALE & MIRANDA, 2010).
Neste trabalho, procedeu-se uma simulação de valor para taxas de 1, 10, 20, 30, 40 e 50% ao ano, para comparar o comportamento de VPL dos dois empreendimentos, e com os resultados foi gerado um gráfico para avaliar cada projeto em estudo. Utilizou-se uma planilha eletrônica para o cálculo do VPL. Assim, pode ser testada a mudança dessa taxa afetando o valor do VPL.

Critérios econômicos de decisão
Todos os critérios utilizados consideram a variação do capital no tempo, ou seja, consideram como o fluxo de caixa do projeto varia ao longo do horizonte de planejamento. Os fluxos de caixa representam as estimativas de entradas (receitas) e saídas (despesas) de recursos monetários em um determinado projeto produtivo, ao longo do tempo. O resultado líquido desses fluxos pode ser calculado subtraindo-se das receitas as despesas e assume-se que quanto maior for o lucro, melhor será o projeto, pelo menos no que tange ao critério viabilidade econômica.
O VPL calcula o valor líquido (receitas menos custos) atual de um fluxo de caixa futuro:

VPL = VPR- VPC

VPL- Valor Presente Líquido; VPR- Valor Presente das Receitas; VPC- Valor Presente dos Custos.

VPR = ∑R0

∑R0 – é o somatório das receitas no tempo presente, isto é descapitalizada.

VPC = ∑C0

∑C0 – é o somatório dos custos no tempo presente, isto é descapitalizado.

Para realizar a descapitalização das Receitas (R) ou Custos (C), ou seja, saber qual o valor no dia de hoje, utilizamos a seguinte equação:

Vo- Valor no tempo atual; Vm- valor gerado no tempo n; i- taxa de juros; n- unidades de tempo

Para Séries de Receita ou Custos (valores que se repetem no HP) tem-se ainda que:
Vo- Valor no tempo atual; Vm- valor gerado no tempo n; i- taxa de juros; n- unidades de tempo; t- fator de correção entre n e i.
Regra de Decisão: Projetos são economicamente viáveis quando VPL é maior que zero e, comparando projetos, aquele que apresentar maior valor de VLP será o mais atrativo.

A TIR refere-se à taxa de juros compostos que iguala o VPL a Zero. Ou seja, é a taxa de juros que iguala o valor presente das receitas ao valor presente dos custos. Ela indica quanto o projeto está rendendo internamente, isto é, quanto o projeto é viável economicamente. Os Valores de TIR podem ser obtidos pelo método visual, por tentativas e erros e por softwares especializados. No método visual a TIR é determinada no ponto em que a curva corta o eixo das abscissas (X).

Regra de Decisão: Aceitam-se os investimentos que apresentem TIR maior do que o mínimo aceitável como taxa de retorno ou Taxa Mínima de Atratividade (TMA). Na escolha entre mais de duas alternativas de investimento, a princípio, deve-se optar pela de maior TIR, mas este critério não pode ser analisado isoladamente.

A Razão Receita Custo (R/C) é obtida dividindo-se o valor presente das receitas pelo valor presente dos custos.

R/C- Razão Receita Custo; VPR- Valor Presente das Receitas; VPC- Valor Presente dos Custos.

Regra de Decisão: Aceita-se o projeto cuja razão R/C seja maior do que 1. Na escolha entre mais de duas alternativas, deve-se optar pelo projeto de maior razão R/C.

A Receita Líquida Periódica Equivalente (RLPE), também chamada de Benefício Líquido Periódico Permanente, indica a receita em intervalos de tempo iguais ao longo do horizonte de planejamento. Por exemplo, transforma o Valor Presente Líquido em um fluxo anual e constante de receitas/cus­tos. Também conhecido como Valor Líquido Presente Anualizado, pode ser visto como a quantia anual que pagará, dentro do horizonte de tempo considerado, exatamente o valor líquido presente do fluxo de caixa. Este critério é útil na comparação de investimentos que produzam retornos periódicos (p. ex., culturas florestais) com investimentos que produzam retornos anuais (p. ex., culturas agrícolas). É também útil na comparação de investimentos com horizontes planejamento diferentes. A obtenção de uma anualidade torna o ano (ou período de capitalização utilizado) a unidade de tempo comum aos projetos que estejam sendo comparados. O cálculo exige que primeiro se obtenha o VLP, que por sua vez será usado na seguinte fórmula:



RLPE- Receita Líquida Periódica Equivalente; VPL- Valor Presente Líquido; i- taxa de juros; n- unidades de tempo; t- fator de correção entre n e i.

O Custo Médio de Produção é um critério de avaliação de projetos que considera o quanto custa produzir uma unidade do produto. Consiste em dividir o valor atual do custo pela produção total equivalente (R$/m³).

CmPr- Custo médio de produção; Ve- Volume equivalente; VPC- Valor Presente dos Custos.

A Produção equivalente (m³) é o somatório das quantidades produzidas em cada período, descapitalizadas para o período zero (tempo atual), considerando-se a taxa de juros, segundo a fórmula:

Ve- Volume equivalente; Vm- valor gerado no tempo n; i- taxa de juros; n- unidades de tempo.

Regra de Decisão: Se o custo de produção é menor que o custo de venda, o projeto é viável, uma vez que há retorno financeiro.



Resultados e Discussões
Os valores dos critérios de avaliação econômica são apresentados na tabela 01. A memória dos cálculos segue em anexo.

Tabela 01. Valores de critérios de avaliação econômica para plantios florestais destinados a serraria e energia.
Critério
Serraria
“Projeto A”
Energia
“Projeto B”
VPL
336,45
322,18
TIR
10,6
10,8
R/C
1,028
1,022
RLPE
49,38
39,28
CmPr
84,61
48,93



VLP- Valor Presente Líquido; TIR- Taxa Interna de Retorno; R/C- Razão Receita Custo; RLPE- Receita Líquida Periódica Equivalente; CmPr- Custo Médio de Produção.

Para a taxa de juros de 10% a.a. ambos os projetos são viáveis (VPL>0, TIR >TMA, R/C>1, RLPE>0 e CmPr inferior ao preço de venda) . O empreendimento serraria é o mais atrativo, pois gera R$ 14,00/ha a mais de lucro e em menos tempo (12 anos) que o projeto B. Caso o empreendimento destinado a energia apresentasse os melhores valores, seria necessário calcular a VLP infinita, e deste modo igualar os horizontes de planejamento dos dois projetos, para afirmar qual seria mais viável.
Quanto ao valor de TIR podemos perceber, através da figura 01, que o projeto Serraria é mais sensível, sendo viável até uma taxa de 10,6%. Qualquer taxa de juros acima desta torna o projeto inviável economicamente, isto é, será mais viável investir em outra opção. Comparativamente, é possível concluir que o empreendimento Energia tolera uma taxa de juros um pouco maior (TIR=10,8%).


Figura 01. Taxa interna de retorno para os projetos Serraria e Energia, obtidas pelo método gráfico.

O valor calculado R/C representa a rentabilidade proporcionada pelo investimento, ou seja, representa o número de unidades monetárias retornadas para cada unidade monetária investida, já corrigida pela taxa de juros (VITALE & MIRANDA, 2010). Pelo critério da Razão Receita Custos é possível concluir que o projeto serraria gera 2,8% de lucro e para energia 2,2% de lucro.
Considerando a Receita Líquida Presente Anual o projeto serraria gera receita  de R$ 10,00/ha/ano a mais em relação ao projeto destinado a energia. A partir do valor de CmPr defini-se que não se deve vender a madeira por preço inferior a R$ 84,62 para madeira para serraria e R$ 48,93 para energia.
A TIR e CmPr nem sempre vão mostrar a opção mais rentável, sendo assim deve ser dada maior importância ao VLP ao RLPE e a Razão Receita Custos.

Análise de sensibilidade
O VLP é muito sensível às mudanças na taxa de juros e muitas vezes a mudança de uma unidade na taxa pode tornar o projeto inviável. Em projetos florestais a taxa de juros utilizada para definir sua viabilidade varia de 5 a 15% pois dificilmente haverá opção de investimento superior a esta.
Rezende & Oliveira (2001) mostram que a relação entre a taxa de juros e o VPL é inversa, ou seja, quanto maior a taxa de juros, menor o VPL e vice-versa. Analisando os resultados, a partir da figura 02, percebemos que à medida que a taxa de juros aumenta, o VPL de ambos os projetos diminui, implicando na redução de atratividade pelos mesmos. O projeto serraria apresenta uma sensibilidade ligeiramente maior à alteração na taxa de juros, pois tem maior queda em VLP para uma mesma alteração na taxa de juros dos dois projetos.

Figura 02. Comportamento de VPL frente diferentes taxas de juros.

Conclusões
Comparando os dois projetos florestais através dos critérios econômicos, concluiu-se que os empreendimentos florestais destinados a serraria e energia, segundo o fluxo de caixa desta análise, são economicamente viáveis. O projeto serraria é o mais viável por gerar mais lucro e em menos tempo.

Referências
Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (ABRAF). 2011. Anuário Estatístico da ABRAF 2011 – ano base 2010. Brasília, DF.
SERVIÇO FLORESTAL BRASILEIRO: Brasil Com Florestas: Oportunidades para o desenvolvimento de uma economia florestal e a reestruturação necessária do setor. Brasília, março de 2012.

REZENDE, J.L.P.; PADUA, C.T.J, OlLIVEIRA, A.D. & SCOLFORO, J.R.S.: Análise econômica de fomento florestal com eucalipto no estado de Minas Gerais. Revista Cerne, Lavras, v. 12, n. 3, p. 221-231, jul./set. 2006

GRAÇA, L.R; RODIGHERI, H.R. & DE CONTO, A.J.:Custo Florestais de Produção:Conceituação e Aplicação. Embrapa Florestas. Documentos 50. Colombo,2000.

REZENDE, J. L. P.; OLIVEIRA, A. D. Análise econômica e social de projetos florestais. Viçosa: UFV, 2001. 398 p.

REZENDE, J.L.P.; BARROS, A.A.A.; OLIVEIRA, A.D. Tratamento da inflação nos programas de investimentos florestais. R. Árv., 7(1): 44-55, 1983.

VITALE, V.; MIRANDA, G. de M. Análise Comparativa da Viabilidade Econômica de Plantios de Pinus taeda e Eucalyptus dunnii na Região Centro Sul do Paraná. FLORESTA, Curitiba, PR, v. 40, n. 3, p. 469-476, jul./set. 2010.

NOCE, R. et al. Análise de risco e retorno do setor florestal: produtos da madeira. Revista árvore, v.29, n.1, p.77-84, 2005